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 Combate ao Covid-19: não há tempo a perder na saúde e na economia

Ano 3 - Edição 33

por Nicola Tingas, Consultor Econômico

Combate ao Covid-19: não há tempo a perder na saúde e na economia

A redução da disseminação é a variável chave para diminuir os efeitos na economia brasileira e mundial.

A melhor medida para abreviar os efeitos negativos na saúde e economia é o "isolamento social", segundo especialistas em infectologia. O Ministério da Saúde chama de "medidas não farmacológicas" - "são  recomendações para reduzir o contato social, evitar a transmissão e manter os serviços de saúde no país".

A questão chave - na abordagem da Organização Mundial da Saúde (OMS) - da experiência na Ásia, e que tem sido replicada crescentemente na Europa, EUA, e outros países, é ampliar rapidamente o isolamento social para diminuir o pico da epidemia acentuado e em curto prazo. Se for reduzida e alongada a amplitude a da curva, há possibilidade de atenuar o risco do colapso do sistema de saúde, salvar vidas, e controlar parte dos efeitos na economia.

Fonte: Centro de Operações de Emergência COE SUS Coronavírus. Link http://bit.ly/coecorona13mar20 

A experiência dos países que adotaram essa prática em ampla escala, identificando onde havia infecção, como Coréia do Sul e China, indicaram melhor capacidade de controle da pandemia. Em outros países em que a ação de isolamento demorou, houve pior resultado (Itália, Espanha, Inglaterra, etc). Os EUA identificou uma espiral de disseminação crescer rapidamente e, com isso, tomaram medidas de "isolamento social". No Brasil, a aceleração do contágio ganha velocidade, requerendo ação imediata para limitar riscos. Dia 14 março havia 98 casos confirmados e nenhum óbito; no dia 23 de março foram para 1891 casos confirmados e 34 mortes. A disseminação cresce em progressão geométrica.

Para os profissionais de saúde, a escolha pelo "isolamento social" em tempo hábil poderá reduzir a intensidade da epidemia, limitando o seu pico. Assim, haveria condição de retomar o funcionamento normal da economia em menor tempo. Contudo, existe divergência “tradeoff” (opções conflitantes, em que há uma renúncia para cada escolha) entre o "isolamento social" e "ampla mobilidade" na economia;  difícil de lidar com a crescente insegurança da população em ser afetada pelo covid-19.

De qualquer forma, com o isolamento social em andamento, é preciso criar uma "ponte de travessia" para a população de baixa renda ou informal, além de pequenas, médias e até grandes empresas, para que possam suportar esse "período de geração de caixa negativo" por alguns meses, até a normalização da atividade. Sem essa "ponte de travessia", poderá haver uma crise financeira para a maioria dos brasileiros e empresas, e ainda paralelamente toda a sociedade enfrentar uma pandemia.

Além das medidas (por sinal, bem conduzidas pelo Ministério da Saúde), vários "policy makers" (gestores de políticas públicas) estão atuando na economia.

Ontem, 23, o presidente do Banco Central (Bacen), Roberto Campos Neto, anunciou medidas amplas para atenuar os riscos financeiros e econômicos. Em apresentação sobre "Medidas de combate aos efeitos da COVID-19" anunciou ações que totalizam R$ 1,2 trilhão (16,7% do PIB), comparado com R$ 117 bilhões em 2008 (3,5% do PIB), evidenciando o risco ampliado da crise sanitária que afeta severamente a economia real, tanto do lado da oferta, mas principalmente do lado da demanda, que já vinha de uma recuperação lenta e frágil.

São três os focos das novas medidas:

1) Nova Liquidez e liberação de Capital das instituições  financeiras para que possam refinanciar os clientes ativos e ofertar para novos clientes;

2) Direcionar a Liquidez,  preferencialmente para micro, pequenas e médias empresas e pessoas físicas;

3) Estabilidade no mercado financeiro.  Em sessão de perguntas depois da apresentação das medidas abaixo o presidente foi questionado se o Bacen poderia assumir riscos de crédito para ampliar a oferta. Sua resposta foi "quem melhor avalia o crédito, em suas diversas ramificações, são os bancos e demais instituições financeiras, que alocam crédito de forma mais eficiente".

Fonte: https://www.bcb.gov.br/conteudo/home-ptbr/TextosApresentacoes/Apresenta%C3%A7%C3%A3o_RCN_Coletiva%2023.3.2020.pdf

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) divulgou sua participação na construção da "ponte financeira" para conter os efeitos da crise do covid-19:
"BNDES lança primeiras medidas para reforçar caixa de empresas e apoiar trabalhadores [...] Medidas ajudarão as empresas a enfrentar dificuldades de caixa e manter mais de 2 milhões de empregos;
Banco prevê injeção inicial de R$ 55 bilhões, para viabilizar atividades de empresas de todos os setores;
Valor envolvido nas ações representa quase a totalidade dos desembolsos do BNDES em 2019".

 

O governo federal tem apresentado, desde a semana passada, medidas para lidar com os efeitos do covid-19 na economia. O destaque de ontem foi o anúncio de liberação de recursos da ordem de R$ 85,8 bilhões para fortalecer estados e municípios: Transferência para Saúde (R$ 8 bilhões); Recomposição dos fundos de participações FPE e FPM (R$ 16 bilhões - seguro para queda de arrecadação); Orçamento Assistência Social (R$ 2 bilhões); Suspensão das dívidas dos estados com a União (R$ 12,6 bilhões); Renegociação com bancos (R$ 9,6 bilhões - dívidas de estados e municípios com bancos); Operações com facilitação de créditos (R$ 40 bilhões).

Os recursos de "caráter fiscal emergencial" ainda terão de ser ampliados e principalmente precisam chegar aos trabalhadores informais e inúmeras empresas (micro, pequenas e médias) que já começaram a ser fortemente afetadas pelo paralisação abrupta da atividade econômica, principalmente no setor de serviços e comércio (63% do PIB). Como exemplo, a paralisação afeta fortemente o setor de Varejo não essencial (sem supermercado e farmácias) em São Paulo, que tem faturamento diário de R$ 1 bilhão. Essa contração severa e instantânea de boa parte da atividade econômica gera expectativa de queda do PIB em dois ou mais trimestres do ano, gerando revisões do PIB 2020 para 0,02% (governo) e entre -0,5% e -1% nas projeções de mercado.  Um exercício difícil e com amplo espectro de dispersão. Momento de acompanhamento das variáveis no curto prazo.

No restante do mundo as  projeções são de desaceleração importante no PIB global, levando Bancos Centrais a implementar fortes medidas de acesso a liquidez e apoio financeiro em muitos países. Os anúncios de socorro com "recursos fiscais emergenciais" têm se ampliado, por parte de instituições multilaterais e de governos de países desenvolvidos ou não; todos buscando atenuar perspectivas de recessão local e global. Dessa forma, a redução da disseminação é a variável chave para reduzir efeitos na economia mundial e brasileira.

Nesse contexto, ainda de incerteza ou mesmo imprevisibilidade, os mercados operam reagindo às notícias de curto prazo, e demonstram  disfuncionalidade na formação de preços de ativos financeiros.

2 - Indicadores financeiros, Pesquisa Focus (BACEN) e Projeções

B3 (Ibovespa) e R$/USD

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Fonte: Omni Banco & Financeira

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