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Desafios da crise tripla: saúde, economia e política

Ano 3 - Edição 35

por Nicola Tingas, Consultor Econômico

 

Desafios da crise tripla: saúde, economia e política

O cenário brasileiro neste início de junho é composto por três grandes desafios que formam a "crise tripla" (saúde, economia e política), crise essa que cresceu de forma interdependente ao longo do mês de maio. Um amigo meu observou que temos vivido algo similar ao que ocorre no filme "Feitiço do Tempo" em que um repórter se vê aprisionado em uma competição do "dia da marmota" acordando sempre no mesmo dia, em uma sequência exaustiva. Neste ambiente que se assemelha simbolicamente ao que temos vivido, ocorre muita dificuldade para estabelecer cenários futuros, porque não se sabe "onde estamos" para ter base para tomar decisão pessoal, empresarial e governamental. 

Contudo, nas duas últimas semanas de maio os mercados de ações (bolsas de valores) começaram a precificar uma recuperação, talvez até incipiente, mas que se manteve firme, baseada em notícias sobre experimentos de novos remédios e avanços em estudos de vacinas para o covid-19. Isso foi acompanhado pelo gradual atingimento de menores números de óbitos por covid-19 na Europa e USA. Isso aflorou desejos crescentes de sair, progressiva e cuidadosamente, do isolamento social, embora corram o risco de uma segunda onda de contaminação. Com o início da primavera no hemisfério norte, essa escolha foi mais forte que o risco de contaminação. 

As bolsas de valores, que se caracterizam por antecipar tendências futuras, estabeleceram firme trajetória de alta, como aconteceu com o S&P 500 americano. O Ibovespa tomou carona, dado que tem certa correlação com os mercados globais, mas também porque houve avaliação de que o impedimento do presidente Jair Bolsonaro é improvável, além do anúncio de "saída planejada" do isolamento social sinalizado para o mês de junho no Estado de São Paulo. Subitamente, o cenário externo começou a regredir com novos ataques frontais do presidente Trump em relação a China. No Brasil, a saída planejada do isolamento em junho no Estado de SP sofreu incerteza com declarações mais restritivas do prefeito de SP, Bruno Covas, afetando a recente "onda otimista" de mercado.  

Teremos agora em junho outro mês de "dia da marmota"?

Na prática, estamos querendo prever algo muito difícil, pois ainda estamos submetidos ao cenário de "crise tripla" permeado de incertezas e imprevisibilidades. O que vai acontecer nos próximos meses ainda é a depuração de um conflito político de dimensão institucional, uma queda de atividade com ampliação do desemprego e diminuição de renda, provável quebra ou fechamento de muitas empresas, e um processo de saída do isolamento mais lento do que o desejado. Isso significa que ainda temos alguns meses para atingir  o "vale da curva" recessiva que a contração do PIB do 1º trimestre de 2020 começa a indicar. Se a queda de 1,5% do PIB do 1º trimestre 2020 sobre trimestre anterior é resultante de apenas 15 a 20 dias de início de isolamento (março), provocando queda de 2% do consumo das famílias, o PIB 2º trimestre que será de isolamento social (principalmente nas grandes cidades) poderá provocar uma queda de 10% sobre o 1º trimestre.

Na medida em que a profundidade do "vale recessivo" e seus efeitos são percebidos, a área econômica do governo está desenvolvendo uma agenda econômica para evitar que essa queda seja profunda e longa. Seria o 2º trimestre o "vale da curva" de queda PIB trimestral? Haverá recuperação lenta ou mais expressiva no 3º trimestre? As respostas para essas perguntas dependem da velocidade e amplitude da saída do isolamento e da intensidade e qualidade do suporte econômico emergencial que será materializado pelo ministério da Economia. O nível de desemprego formal e informal e retração de renda será elevadíssimo ao longo dos próximos meses e sua recuperação será lenta e diluída no tempo. Em nossa projeção, isso significa queda de 7% do PIB 2020, recuperação fraca de 1,5% em 2021 e avanço de 3,5% em 2022, são fortes probabilidades neste momento.

De acordo com Adolfo Sachsida, Secretário de Política Econômica, existe uma estratégia de recuperação da economia brasileira pós quarentena que consiste em dois blocos de ação:

1- Passos pós covid-19 para estimular a economia: Rever programas sociais sem gastar mais; Desemprego aumentará ainda mais - Precisamos de políticas de empregabilidade mais eficientes; Número de empresas indo à falência irá aumentar muito - Precisamos de leis de falências mais eficientes para realocar capital de um setor para outro; O empresário deve poder migrar de setor; Estrutura mais eficiente no mercado de Crédito, de Capitais e de Garantias.

2- Retomar estratégia pró-mercado (estimativa de retomar em Agosto): Privatização; Concessão; Abertura da economia; Reforma Tributária (fundamental); Reforma administrativa "por meio de amplo debate na sociedade”;
Marco legal do saneamento básico; Marco legal do gás; Privatização da Eletrobrás; Trazer mercado para o Brasil.

Na prática, tanto o governo quanto os agentes econômicos, gostariam de uma saída em "V", mas tudo indica que essa condição será difícil de alcançar. Nesse cenário um incremento maior do PIB só deve ocorrer de 2022 em diante, dependendo da eficiência da política econômica e qualidade da produtividade, inovação e transformação na economia, além do bom avanço das reformas econômicas estruturais. 

Uma ação econômica contra-cíclica para amortizar a queda da economia tem margem limitada por conta da forte restrição fiscal das contas públicas, já altamente deficitárias. Nesse contexto, a ação estimulativa da política monetária do Banco Central tem limites. A ação na ampliação da oferta e redução do custo de crédito ainda é o melhor canal para apoiar empresas e famílias na transição financeira até volta da "normalidade econômica". 

O quadro estatístico das "Operações de Crédito no SFN -  abril 2020" divulgadas pelo Banco Central, confirmou que a brusca e intensa queda da atividade econômica teve efeito de contração no ritmo da concessão de crédito. Essencialmente, nota-se a busca por liquidez para cruzar um período de meses de fluxo de caixa negativo por partes das empresas; e, contração do endividamento e postergação de pagamentos das pessoas físicas diante de cenário de fluxo de renda médio menor nos próximos meses (população em geral). 

A retração das operações novas com Pessoa Física foram influenciadas  pela queda do Consumo das Famílias e pela retração da oferta em função do substancial aumento do risco de crédito. As estatísticas revelam aumento lento da inadimplência devido as postergações de vencimentos e renovações de empréstimos em caráter emergencial ao longo da segunda quinzena de março e mês de abril.

Ver quadro completo em https://www.bcb.gov.br/estatisticas/estatisticasmonetariascredito

2 - Indicadores financeiros, Pesquisa Focus (BACEN) e Projeções

B3 (Ibovespa) e R$/USD

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Fonte: Omni Banco & Financeira

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