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Agosto 2020: esperança, retomada e desafios

Ano 3 - Edição 40

por Nicola Tingas, Consultor Econômico

Agosto 2020: esperança, retomada e desafios

O mês de agosto será um importante momento de observação da conjuntura brasileira. Há esperança que neste mês comece o declínio dos efeitos da covid-19, permitindo a manutenção da gradual retomada da atividade econômica. No Congresso Nacional haverá debates e votações da reforma tributária, que está indefinida entre propostas da equipe econômica e parlamentares, há também a intenção de tratar de outras reformas e medidas. Contudo, o debate político é permeado pelo calendário eleitoral. Mês de grandes desafios.

A equipe econômica terá de conciliar difíceis objetivos como: construção do programa de "renda mínima", importante para a estratégia eleitoral de Bolsonaro; liberar recursos para a "ala militar", que tem projeto de investimentos públicos em infraestrutura e promover medidas de sustentação de emprego, renda e atividade na "travessia" e no pós-pandemia. Tudo isso, ao mesmo tempo em que busca fontes de financiamento desses dispêndios para evitar flexibilização da regra de "teto de gastos", preservando as contas públicas de perda de credibilidade. 

A pandemia no Brasil teve efeitos iniciais nas grandes cidades, mas surgem sinais de redução da curva de óbitos (ex. São Paulo). Contudo, a expansão e interiorização da pandemia pelo país tem mantido a curva estável em alto patamar há muitas semanas. Com a longa estabilidade há cansaço social com o isolamento e necessidade de abertura do comércio e serviços. A busca em atender uma flexibilização mais rápida gera descontinuidade na queda de óbitos e novo isolamento que retarda uma retomada mais rápida, como acontece em países em que houve limitado isolamento ou precipitação na reabertura. O ritmo de saída da pandemia impacta a economia. 

Nesse ambiente, mesmo que de forma gradual e desigual entre setores econômicos, a retomada de atividade vem se confirmando. As vendas de varejo continuam em retomada crescente, conforme o Boletim Cielo "Impacto do COVID-19 no Varejo Brasileiro". No período de 1º de março a 25 de julho:

1) houve plena recuperação do setor não durável (farmácias, supermercados, postos de gasolina) com variação de -0,8% no período;

2) houve retomada do setor de duráveis (vestuário, móveis e eletros, material de construção) - depois de uma queda fortíssima no início da pandemia (81,4% em 28 de março) - com variação de -30,6% no período;

3) contudo, a mais difícil retomada é do setor de serviços (turismo e transportes, bares e restaurantes, serviços automotivos) com variação de -60,8% no período. A vulnerabilidade nesse setor prejudica as PMEs (Pequenas e Médias Empresas) e o emprego e renda das famílias.

A contenção parcial dos efeitos danosos da pandemia na economia foi obtida através de:

1) flexibilização de regras de trabalho e salários, que contiveram a perda maior de emprego e renda;

2) inédita distribuição de renda emergencial para mais de 50 milhões de pessoas;

3) medidas de flexibilização de liquidez e expansão da oferta de crédito;

4) gasto público com medidas emergenciais de atendimento de saúde aos infectados pela covid-19;

5) manutenção em funcionamento de setores essenciais da economia. Assim, recentes indicadores de atividade têm confirmado que o "vale do ciclo econômico" foi em março/abril e que desde então há uma gradual recuperação.

Confirmando a progressiva retomada de atividade, o IBGE informou que "em junho de 2020 a produção industrial cresceu 8,9% frente a maio de 2020 (série com ajuste sazonal), intensificando a expansão observada no mês de maio (8,2%). Os dois meses seguidos de crescimento eliminaram parte da perda de 26,6% registrada em março e abril no ponto mais baixo da série. Em relação a junho de 2019 a indústria retrocedeu 9%, mas vem tendo recuperação acima das expectativas da queda anual de 27,8% em abril, pior ponto da comparação anual. Na mesma direção, o Índice de Confiança Empresarial (IBRE/FGV) mostra melhor ritmo de recuperação. 

A composição de um quadro de indicadores melhor que o esperado tem permitido a melhora das expectativas para o PIB 2002, que deixou o patamar de queda entre 6% e 9%, em abril, para 4,5% e 6%, atualmente. Embora essa queda ainda muito expressiva tenha lenta e difícil reversão, cresce a expectativa de travessia menos pior para muitas empresas. Contudo, somente mais no final do ano saberemos quem conseguiu se manter e alcançar um novo ponto de equilíbrio "break-even" em uma economia de menor escala de oferta e demanda. 

O crédito foi importante ponte de travessia financeira nos primeiros, e piores, meses da pandemia. As pessoas jurídicas acessaram rapidamente grandes volumes de recursos em março e abril para garantir liquidez em seus fluxos de caixa. Depois pararam, mas agora começam a tomar crédito para capital de giro, em linha com a retomada gradual indicada acima. As pessoas físicas ficaram em estado de pânico em um primeiro momento e correram para os supermercados para fazer um estoque extra para o isolamento social, deixando de consumir, privilegiando a formação de poupança. Em, seguida passaram a buscar alternativas para alocação de sua poupança involuntária e voltaram gradativamente a consumir bens duráveis e outros facilitados no comércio eletrônico. Começou a haver busca de ativos financeiros (bolsa e outros) , compra de imóveis e automóveis.  

Os que tiveram problemas de caixa aumentaram a demanda por linhas de crédito consignado ou aceitaram ampla oferta de postergação de pagamentos oferecidos pelas instituições financeiras. Neste ano, até junho, a concessão de crédito recursos livres pessoa jurídica cresceu 13,9% (10,3% em junho e 15,7% em 12 meses) e a concessão de crédito recursos livres pessoa física retrocedeu 2,2% no ano (+14,3% em junho e 7,2% em 12 meses), confirmando expectativas de uma gradual realização de demanda reprimida, que cresce na medida da regressão da pandemia.  

O Banco Central (Bacen) projeta que o crédito total no Sistema Financeiro Nacional (SFN) vai crescer 10,6% em 2020, o crédito recursos livres PJ crescerá 15,6% e o crédito recursos livres PF crescerá 6,5% (BACEN, RTI junho 2020). Esse ambiente será facilitado pela SELIC reduzida para 2% no COPOM de Agosto, podendo até mesmo ter maior redução antes do fim deste ano (para uma parcela do mercado), a depender do balanço de riscos, principalmente qual será o encaminhamento do déficit fiscal e dívida pública e seus efeitos na curva de juros futura e na taxa de câmbio. De fato, há muitos desafios para melhor encaminhar ou superar, mas por hora, predomina a retomada. 

Indicadores financeiros, Pesquisa Focus (BACEN) e Projeções 

B3 (Ibovespa) e R$/USD

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Fonte: Omni Banco & Financeira

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