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Cenário econômico 2021: definições da política, direcionamento da economia

Ano 3 - Edição 43

por Nicola Tingas, Consultor Econômico

Cenário econômico 2021: definições da política, direcionamento da economia e outras análises

A eleição de Joe Biden para a presidência dos Estados Unidos no início de novembro, mais as notícias sobre avanços positivos nos testes de diversas vacinas para a covid-19, promoveram uma onda de valorização das bolsas de valores americanas, com reflexo para países emergentes. Em novembro (até dia 25), a bolsa brasileira (B3) recebeu ingresso de recurso estrangeiro de R$ 30 bilhões alavancando a valorização das ações em geral. Mas ao longo do ano o saldo líquido de estrangeiros foi negativo em R$ 54,9 bilhões. Nos USA a valorização poderá continuar em linha com as expectativas de que Biden agirá rápido na gestão da pandemia e obterá aprovação do Congresso para novos gastos fiscais necessários, segundo o Sistema de Reserva Federal dos Estados Unidos (FED), para sustentar a economia e evitar sua queda mais à frente.

No Brasil, a "economia real" depende da votação do Orçamento Geral da União 2021 e aprovação de medidas e reformas (PECs) no Congresso Nacional. A situação do orçamento público é complexa e o "universo de manobra" para qualquer novo gasto é muito restrito. Para haver recursos para eventual renda mínima em 2021, destinada à enorme população vulnerável, seria preciso aprovar cortes de gastos orçados e remanejamento de recursos para financiar esse eventual programa social. De qualquer forma, o Tribunal de Contas da União (TCU) tem restrição na meta flexível embutida na proposta de Orçamento Geral da União (OGU) 2021 de agosto. O governo vai refazer o OGU e fixar uma meta fiscal primária, atendendo ao TCU.

Também não há espaço para gastos de investimento. O Ministério do Desenvolvimento Regional (liderado por Rogério Marinho) e parlamentares pediram ao TCU, via Advocacia-Geral da União (AGU), para utilizar o OGU 2020 para executar obras nos próximos anos, viabilizando gastos de até R$ 40 bilhões. O TCU poderá ter restrições nesse de uso orçamentário.

A votação do OGU 2021 estava suspensa esperando o fim das eleições municipais. O Congresso Nacional também está paralisado na espera de que o Supremo Tribunal Federal (STF) decida nos próximos dias a possibilidade de reeleição para Alcolumbre e Rodrigo Maia para a presidência do Senado e Câmara dos Deputados, respectivamente.  A eleição do Congresso será em fevereiro. Esta eleição tem enorme importância no jogo político e também na eleição presidencial de 2022.

A sucessão presidencial em 2022 está pautando a agenda política do governo e também norteará a direção da política econômica para 2021 e 2022. Para tanto, há prenúncios de que o presidente da República fará uma reforma ministerial em março ou abril para moldar apoio político para sua reeleição em 2022. Para o mercado, além da gestão do risco fiscal,  importa saber qual será a diretriz e o condutor efetivo da política econômica. 

As principais variáveis para nortear o desempenho da economia em 2021 são: incerteza política; elevado risco fiscal (alto déficit de contas públicas e expressiva dívida pública); volta do aumento do contágio pela covid-19, e incerteza sobre quando a vacinação para covid-19 chegará até grande parte da população.

Além disso, o ambiente econômico de 2021 também acumula outros desafios para mitigar ou superar:

1. Desemprego crescente rumo a patamar muito elevado

Em setembro deste ano, a taxa de desemprego chegou a 14,6% da força de trabalho, representando uma população estimada de 14,1 milhão de pessoas. Vide PNAD Contínua (IBGE). Na medida em que a população voltar a procurar emprego, a taxa de desemprego atual poderá chegar a 16% no fim de 2020 e avançar para algo como 17% a 20% em 2021. Isso se não houver medidas fiscais responsáveis para redução da enorme incerteza com relação ao futuro, permitindo a gradual volta da confiança, atração de investimentos e geração de empregos. Concomitantemente, será necessária a criação rápida e eficiente de uma política emergencial de empregos.

2. Inflação alta da alimentação do domicílio reduz renda líquida dos mais pobres e agrava situação social

Os preços de atacado e de varejo brasileiro estão em alta por diversos motivos: forte desvalorização da moeda brasileira em 2020, "internalização" de preços mais caros de produtos exportáveis (commodities minerais e agrícolas), pressão de custo ou descontinuidade de oferta de insumos industriais, demanda concentrada em curto espaço de tempo (por exemplo, material de construção para pequenas obras). Contudo,  o que mais afeta a população de baixa renda é a alta significativa no item alimentação no domicílio (9,37% de janeiro a outubro 2020 contra 2,22% no Índice geral). Isso reduz drasticamente a "renda líquida" das famílias de baixa renda, agravando a situação individual, familiar e social.

3. Banco Central e o dilema da taxa de juros real muito negativa

É fato que mesmo antes da pandemia a economia brasileira vinha em recuperação lenta e gradual do ciclo de queda e retorno do produto nacional entre 2014 a 2018. Também é fato que a inflação tem tido uma trajetória de declínio efetivo ao longo desses anos, caracterizando crescentemente uma "inflação ancorada" em baixo patamar histórico. Isso permitiu reduzir a "taxa de juros nominal" e a "taxa de juros real" significativamente ao longo desses anos. Esse fechamento de taxa real foi ampliado na pandemia, como fazem outros bancos centrais, buscando uma política monetária muito estimulativa, operando portanto com taxa de juros real negativa.

 

O gráfico mostra que na medida em que a inflação tem aumentado ao longo dos meses recentes, a taxa SELIC de 2% ao ano está bastante negativa em relação a inflação 12 meses (IPCA 15 12 m outubro 2020 de 3,52%). Essa inflação continua em alta, agora agravada pela liberação da "bandeira tarifária vermelha" de energia elétrica, que resultará em IPCA entre 4% e 4,4% em 2020. A meta de inflação é de 4% para 2020 e 3,75% para 2021. Assim, mesmo com o surpreendente IPCA de 2020, ainda estará dentro do intervalo da meta. O mercado estima que esse aumento esvazia a pressão no IPCA 2021 que deverá fechar entre 3% e 3,5% (tendência para limite menor). 

Mesmo assim, ao longo de 2021 haverá meses em que o IPCA 12 meses estará ainda próximo dos 4% antes de cair para o patamar menor. Além disso, há meses tem sido elevada a taxa de juros de longo prazo nos mercados futuros, devido ao crescente risco com a elevação da dívida pública e o grande montante de vencimentos de títulos públicos em 2021. Assim, mesmo que o IPCA fique abaixo da meta de inflação 3,75% para 2021 e o Banco Central busque manter a SELIC bastante estimulativa de 2% ao ano nominal, o mercado financeiro projeta que a taxa SELIC deve ser elevada para 3% ou 3,5% antes do final de 2021.

Portanto, há vários fatores de incerteza e percepção de risco pelos agentes econômicos e mercado financeiro.

Se, de fato, em 2021 houver uma gestão fiscal e implementação de medidas econômicas coerentes, consistentes, e no ritmo certo; haverá ambiente para a formação de um "viés virtuoso" na economia. Haverá redução dos prêmios de risco em geral, fortalecendo a tendência de recuperação econômica. E que também será adicionalmente impulsionada quando houver vacinação de parte significativa da população. 

Por outro lado, se a escolha for por uma política econômica de maior risco fiscal e inconsistências intertemporais em sua formatação e execução, o risco percebido pelos agentes econômicos será maior. Nesse contexto, 2021 poderá resultar em um ano de "ambiente morno e complexo" para economia e mercados.

Indicadores financeiros, Pesquisa Focus (BACEN) e Projeções

B3 (Ibovespa) e R$/USD

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Fonte: Omni Banco & Financeira

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